A Grande Jornada da América do Sul - Parte 1: Acre

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A Grande Jornada da América do Sul

Por Tito Aureliano, 2012


INTRODUÇÃO

Todos nós que sonhávamos sermos exploradores quando criança, assistindo os filmes de Spielberg e George Lucas, ou mesmo aqueles ainda mais antigos, filmes B de aventura, pois bem, todos nós que gostamos do gênero tivemos uma fase assim: O que acontece se quando a gente fica mais velho e somos atingidos com uma tremenda vontade de viver uma aventura de verdade?

“A Grande Jornada na América do Sul” é uma série de crônicas reais de uma viagem que realizei em Janeiro de 2010, partindo da Amazônia Brasileira até os Andes Bolivianos, e depois ao Atacama, no Chile, os desertos Peruanos, as ruínas Incas aos arredores de Cusco, e de volta a Amazônia, atravessando a borda Peru/Brasil.

O enfoque foi dado às questões Arqueólogicas nesses locais, mas também foram observadas e anotadas observações paleontológicas, ecológicas e geológicas desses fantásticos e tão contrastantes lugares.

Diferentes civilizações povoaram essas regiões e deixaram seus traços: os famosos Incas, com seus palácios de templos, os Nasca, com seus geoglifos misteriosos, múmias e aquedutos do deserto, os Tiwanaku – meus favoritos – com extensas cidades desde os Andes até ruínas no Deserto do Atacama, e ainda os Geoglifos do Acre brasileiro, de uma época antes da atual selva dominar as regiões de planície, que hoje revela traços de uma complexa sociedade que vivia na região Amazônica brasileira.

Alagações na selva, Montain Biking nas nuvens dos Andes, a travessia do Deserto de sal de Uyuni, ruínas no deserto, fósseis e múmias nessas crônicas de aventura que serão apresentadas em capítulos aqui no Titossauro.com.

Espero que os leitores gostem tão quanto eu gostei em conhecer aqueles lugares.

 

 

Figura acima: Mapa esquemático resumindo os trajetos realizados durante toda a jornada pela América do Sul, narrados nessas crônicas. Autoria: Tito Aureliano, 2011.

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"A Grande Jornada da América do Sul"


PARTE I: ACRE 


 

Jangada quebrada às margens do Rio Acre. População Ribeirinha a cerca de 60 km ao sul de Rio Branco, Acre, Brasil. Autoria: Tito Aureliano, 2009.

“O lugar mais remoto do mundo”, os brasileiros costumam dizer sobre o Acre.

Entretanto, possui sua capital muito bem organizada e suas estradas ao lado leste do estado muito bem conservadas.

Em contraste, o Acre possui ainda uma vasta região de selva Amazônica ainda não explorada pela Civilização Ocidental. Animais desconhecidos, plantas medicinais, fósseis únicos e povos indígenas isolados (nunca contatados pela FUNAI!), e sítios arqueológicos absolutamente fantásticos.

Fotografia à direita: Jangada quebrada às margens do Rio Acre. População Ribeirinha a cerca de 60 km ao sul de Rio Branco, Acre, Brasil. Autoria: Tito Aureliano, 2009.

Infelizmente a porção leste do estado, onde estão a maioria das estradas que levam até a divisa com a Bolívia, as fazendas prevalecem e o desmatamento é quase total da Floresta. É muito triste de observar. A exploração ilegal de madeira selvagem a qual testemunhei durante uma expedição científica no local (clique aqui e leia sobre a expedição) deixou-me revoltado e entristecido. É negócio entre alguns grandes fazendeiros acreanos comprar lotes enormes de selva nativa do proprietário, que é ribeirinho (assim chamados os nativos que vivem de caça e pesca, e raramente de plantação sustentável, uma forma de vida muito simples e humilde). “Eles compram a propriedade de 40 mil hectares de selva por R$40 mil e depois vendem ilegalmente toda a lenha abatida por R$80mil”, um amigo meu acreano disse, “ao final, os grandes fazendeiros lucram para terem um território ainda maior e os pequenos proprietários ribeirinhos originais vão se mudando cada vez mais para o interior da selva”.

Partindo no final da madrugada do dia 16 de Fevereiro de 2010, minha amiga Andréa deu carona até a estação rodoviária de Rio Branco. É bem organizada a estação de ônibus. Pequena, mas limpa e organizada.

Minha primeira etapa no mochilão foi seguir para o limite sul do estado, para divisa com a Bolívia. Existem duas opções para quem for realizar o trajeto: o ônibus é razoavelmente bom e a passagem em 2009/10 custou uns R$ 30,00; você pode pegar um transporte privado coletivo informal, que sái um pouco mais caro (por volta de R$40,00, dependendo de sua negociação). Muitos acreanos realizam diariamente o trajeto da capital para as fronteiras com seus veículos próprios. A vantagem: é bem mais rápido de carro (por volta de 2 horas). O ônibus demora de 3 a 4 horas.

Aquele dia de manhã eu fui de transporte coletivo, pois eu queria já dormir em La Paz – uma meta quase impossível, tendo em vista a Amazônia inteira para atravessar e ainda subir os Andes.

Então partimos ao amanhecer, com o carro lotado de gente, pela rodovia bem asfaltada, atravessando infindáveis fazendas acreanas.

Um desmatamento enorme e quase não se vê atividade pecuária, ou sequer atividade agricultora nas grandes fazendas de lá. Um desperdício de natureza. Isso acontece pois o solo amazônico é muito pobre em nutrientes (e isso é o mesmo para qualquer solo em região de floresta tropical úmida). O que mantém a rotatividade de nutrientes no solo de floresta tropical é justamente a vegetação nativa. Se alguém abate a floresta, o solo empobrece e torna-se quase um semi-árido. Então, torna-se muito caro realizar plantio em larga escala na Amazônia, por que requer uma reposição de nutrientes artificialmente no solo.

Pode ser observado o desmatamento quando se passa por esse trecho destruído da mata, nas fazendas. Foi com muita infelicidade que percebi esse problema gravíssimo no Brasil. Deveria haver melhor acompanhamento do Governo para que não fossem desperdiçadas tantas áreas de Amazônia sem que houvesse retorno satisfatório.

Fotografia à esquerda: Trecho destruído da Floresta Amazônica em fazenda acreana à beira da Rodovia. Autoria: Tito Aureliano, 2011.

O desmatamento desenfreado no Acre revelou, entretanto, o que há séculos se escondia na selva, por debaixo das copas das árvores gigantes.

Nós viajamos ao longo de todo o trajeto. E ele me contou sobre histórias de sítios arqueológicos e que já havia levado pesquisadores peruanos para algumas localidades perto da rodovia, para realizarem um estudo de campo.

“Pare o carro!”, eu pedi para o motorista. “Geoglifos!”.

Formas geométricas gigantes que só podem ser compreendidas quando vistas por fotografia aérea.

A rodovia atravessava pelo meio de uma enorme geoglifo. O que parecia ser um morrote, era um fosso retangular interrompido pela autopista larga. Obervando essas estruturas de perto é que se percebe a sua grandiosidade.

Sítios arqueológicos de um povo que vivia na Amazônia há quase mil anos. Estudos são poucos e restos arqueológicos são escassos (uma única cerâmica encontrada), mas tudo indica cavavam fossos para estabelecimento de tanques e canalização de água. Alguns cientistas dizem que criariam tartarugas e peixes, e que utilizariam os canais para plantação.

Foram encontrados primeiramente pelo Geógrafo brasileiro Alceu Ranzy, no final dos anos 1970. O impacto dessa descoberta e sua repercussão na questão é que até então a comunidade científica acreditava que a Floresta Amazônica não permitiria o desenvolvimento de um povo com características sedentárias e organização urbana.  Até então acreditava-se que o ambiente de selva tropical não permitiria que um povo desenvolvesse sua cultura em um caminho como tal.

Geoglifos como tais foram encontrados também no nordeste da Bolívia, na região de Llanos de Mojos, onde predomina uma mistura de vegetação amazônica e savânica. Estudos indicam que os sítios bolivianos, apesar de muito mais antigos, possuiam funções diferentes. Ao invés de fossos para cultivo de alimentos e estabelecimento de canais, seria o meio de sustentação de toras de madeira, que formavam muralhas. Havia, segundo pesquisadores bolivianos, uma séria de cidadelas uma próxima a outra. Provavelmente o povo amazônico mais ao norte teria invadido o espaço amazônico quando a vegetação ali não era tão densa, por volta do séc. XII e por lá se estabeleceram até que a floresta os cobrisse.

Uma estrutura de aldeamento semelhante foi encontrada na última década no alto Xingu, no nordeste do Mato Grosso, por Michael Heckenberger e o líder tribal Afukaka Kuikuro. As ruínas estão localizadas em um território considerado com sagrado e considerado pelos Kuikuro como “a terra de seus antepassados, onde os deuses começaram o mundo”.

Isso é apenas uma amostra dos segredos que a região amazônica guarda há séculos. Cabe às novas gerações preservar a floresta e todo seu conteúdo científico para que possamos continuar a fazer novas descobertas.

Figura acima: Geoglifo encontrado no sudeste do estado do Acre. Foto: Alceu Ranzi.

 

 

 

Figura à direita: Geoglifo encontrado no sudeste do estado do Acre. Foto: Alceu Ranzi.

 

 

 

 







Figura à esquerda: Fotografia aérea e croqui esquemático do sítio Fazenda Colorada (Foto: Sanna Saunaluoma). Fonte: Pärssinen, Schaan & Ranzi, 2009.

 

 

 

 



Figura à direita: Fotografia aérea e croqui esquemático do sítio Fazenda Paraná. Fotografia: Edison Caetano. Croqui: Martti Pärssinen e Denise Schaan. Fonte: Pärssinen, Schaan & Ranzi, 2009.













Continuando a jornada, prosseguimos até Brasiléia, a cidade-fronteira Brasil / Bolívia.

Eu esperava encontrar um velho oeste amazônico. Surpreendi-me.

A cidade de Brasiléia era muito bem organizada, limpa e bela. Muito pequena e aconchegante, cheia de jardins floridos, como as cidades de Santa Catarina. O clima amazônico, é claro, muito calor.

Segui até a fronteira. Outra surpresa: era uma ponte muito bem arquitetada sobre o Rio Acre.

Figura acima: Ponte de fronteira Brasil / Bolívia, em Brasiléia, Acre. Autoria: Tito Aureliano, 2009.

Do outro lado da ponte via-se um forte espanhol com guardas e a bandeira da Bolívia. A entrada da cidade de Cobija.

Ali, sim, era o velho oeste.


Continua na "Parte II: Bolívia".



Bibliografia:


Pärssinen, Schaan & Ranzi, 2009. Pre-Columbian geometric earthworks in the upper Purus: a complex society in western Amazonia. ANTIQUITY 83 (2009): 1084–1095.

 

 


Last modified on Domingo, 19 Fevereiro 2012 20:24

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